Pessoas de papel
Há algo de estranhamente físico em ler. O papel amarelece, dobra, absorve a umidade das mãos e o café que cai sem querer sobre a página trinta e sete. E, no entanto, é justamente essa fragilidade que o torna capaz de atravessar séculos: um livro guardado numa estante silenciosa pode esperar décadas por um leitor, e quando esse leitor finalmente chega, o papel entrega, intacta, a mesma frase que foi escrita havia cem anos. Não existe matéria mais paciente do que essa.
As pessoas que leem — de verdade, com demora, sem pressa de terminar — também se tornam um pouco de papel. Absorvem coisas que não pediram para absorver: uma metáfora que muda a forma como olham para o próprio luto, um personagem secundário que explica, sem querer, um comportamento da mãe ou do pai. A leitura não é decorativa; ela reorganiza silenciosamente a mobília interna de quem lê. E como o papel, essas pessoas ficam marcadas — por vincos, por grifos, por cantos dobrados que voltam, meses depois, como lembranças inesperadas.
Talvez por isso este blog se chame Degraus de Papel. Porque cada texto lido — e cada texto escrito — é um degrau frágil, feito de uma matéria que qualquer descuido pode rasgar, mas que, com o cuidado certo, sustenta o peso de uma vida inteira subindo. Não escrevo aqui para provar nada. Escrevo para registrar a subida, degrau por degrau, folha por folha, enquanto ainda houver luz para ler.