Degraus de Papel
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A primeira letra

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Toda pessoa que escreve conhece o mesmo inimigo: a página em branco não é vazia, ela é ruidosa. Ela grita possibilidades demais, caminhos demais, e o silêncio dela é, na verdade, um excesso disfarçado de nada. Sentar-se diante do branco é sentar-se diante de um espelho que ainda não decidiu que rosto vai refletir. É por isso que tantos textos morrem antes da primeira frase: não faltam ideias, falta a coragem de escolher uma e sacrificar as outras.

A primeira letra, então, é um ato quase moral. Escrever um “A”, um “O”, um simples “Era” já é decidir que este texto será sobre isso e não sobre aquilo — é matar, silenciosamente, um universo de textos possíveis para que um único texto real possa nascer. Ninguém fala sobre esse luto pequeno que acontece a cada início. Escrevemos como se a primeira palavra fosse gratuita, mas ela custa a morte de todas as outras que poderiam ter vindo no lugar.

Depois da primeira letra, tudo fica um pouco mais fácil, porque o compromisso já foi assumido. O texto começa a ter peso próprio, começa a puxar a mão de quem escreve, em vez de esperar ser empurrado. É como descer um degrau depois de hesitar longamente no topo da escada: o primeiro passo é o único que exige coragem verdadeira; os seguintes já têm o impulso do primeiro.

Por isso, quando alguém me pergunta como começar a escrever, respondo sempre a mesma coisa, que não é bonita nem é método: escreva a primeira letra errada, se for preciso. Escreva-a sabendo que vai apagá-la. O importante não é que ela seja a letra certa — é que ela exista, e que, ao existir, abra a porta para todas as que ainda vão vir.

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